A fase mais desafiadora do ciclo pecuário nos Estados Unidos pode ter ficado para trás, mas os efeitos ainda pesaram sobre o resultado da MBRF (MBRF3) no quarto trimestre, na visão de executivos da gigante brasileira do setor de alimentos.
“2025 provavelmente foi o pior ano do ponto de vista financeiro”, disse Tim Klein, CEO da National Beef, controlada da MBRF que opera no mercado americano, em entrevista a jornalistas para comentar os resultados divulgados nesta quarta-feira (18).
Segundo o executivo, há sinais iniciais de melhora, embora o ambiente siga apertado no curto prazo.
“Com algumas reduções de capacidade que estamos vendo para 2026, acreditamos que o pior ficou para trás e esperamos resultados melhores daqui para frente. Em termos de oferta total de gado, não esperamos uma recuperação relevante até 2027”, afirmou.
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A avaliação resume o cenário enfrentado nos últimos três meses de 2025 pela nova gigante das proteínas, formada pela fusão entre o frigorífico Marfrig e a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão.
A companhia encerrou o quarto trimestre de 2025 com lucro líquido de R$ 91 milhões, uma queda de 92% na comparação anual, apesar do crescimento da receita e da manutenção de uma geração operacional relevante.
A receita líquida somou R$ 43,915 bilhões, alta de 4,8%, com impulso do maior volume e preços em diferentes geografias.
O volume total vendido atingiu 2,192 milhões de toneladas. Ainda assim, o Ebitda ajustado recuou 9,1%, para R$ 3,410 bilhões, com margem de 7,8%, o que reflete justamente a compressão da rentabilidade.
O resultado da companhia pode ser explicado por uma combinação de fatores operacionais e financeiros.
De um lado, o ciclo pecuário nos Estados Unidos elevou o custo do gado, principal insumo da operação de bovinos, o que comprime margens mesmo em um ambiente de demanda mais resiliente.
De outro, a operação de aves foi impactada por restrições associadas à gripe aviária, que afetaram as exportações e a rentabilidade.
“Operacionalmente tivemos uma queda de margens, principalmente na América do Norte e na BRF, impactadas pelo ciclo de gado nos Estados Unidos e pela gripe aviária”, disse o vice-presidente de Finanças e Relações com Investidores, José Inácio Scoseria Rey.
Na América do Norte, apesar da menor oferta de animais, a demanda segue firme, o que tem evitado quedas mais acentuadas de receita.
Rey também explicou que o resultado foi impactado pelo juros elevados no Brasil, que acabou aumentando justamente o custo financeiro da empresa.
“Houve uma maior pressão na linha financeira, decorrente de uma dívida mais alta, em grande parte associada aos dividendos distribuídos durante o processo de fusão, e do aumento da taxa Selic, que elevou o custo da dívida da companhia”, disse.
Apesar do cenário desafiador no curto prazo, a companhia aponta para uma possível melhora gradual à frente, sustentada pela expectativa de reequilíbrio do ciclo pecuário e por ajustes de capacidade na indústria americana.
Ainda assim, a normalização da oferta de gado deve levar tempo, o que mantém a pressão estrutural sobre custos no horizonte.
No consolidado de 2025, a MBRF reportou receita líquida recorde de cerca de R$ 164 bilhões, com crescimento próximo de 12% e avanço de volume, reforçando sua estratégia de diversificação geográfica e de portfólio multiproteína.
“Foi um ano de receita líquida recorde [...] mesmo num ano extremamente desafiador”, afirmou o CEO, Miguel Gularte.
O cenário geopolítico no Oriente Médio, com a guerra dos Estados Unidos contra o Irã também está no radar da empresa para o ano. Mas, apesar da escalada de tensões na região, a MBRF disse não ter enfrentado impactos relevantes na operação até agora.
“Não tivemos impacto [...] no nosso processo de distribuição”, disse Gularte.
Segundo ele, a companhia antecipou riscos ao posicionar estoques nos principais mercados da região, estratégia que permitiu manter o abastecimento mesmo diante de eventuais dificuldades logísticas.
A empresa também afirma ter conseguido repassar custos adicionais de frete decorrentes do conflito.
O aumento do custo de frete, classificado como “taxa de guerra”, vem sendo repassado aos clientes, segundo a companhia.
“Não está havendo nenhuma dificuldade de absorção — o cliente está aceitando cobrir essa taxa porque sabe que é um custo real, não especulativo”, disse o executivo.
“Quando o mercado passa por uma situação como essa, ele entra num processo de estresse de consumo. Todo mundo quer comprar produtos, guardar produtos em casa, e encher o freezer.”
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