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Escolha de filho de Khamenei rompe tradição da Revolução Iraniana

2026/03/15 19:00
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A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã provocou questionamentos sobre a legitimidade do processo de sucessão. Mojtaba é filho do aiatolá Ali Khamenei, morto no início dos ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra o país persa. Poucos dias depois da morte do pai, a Assembleia de Peritos do Irã elegeu o clérigo de 56 anos como novo líder supremo. Esse órgão é responsável por escolher a autoridade máxima da República Islâmica.

O atual formato de governo iraniano foi instituído pela Revolução Islâmica de 1979, que substituiu a monarquia que governava o país até então para instituir uma república. Dessa forma, o líder máximo da nação passou a ser escolhido com base na hierarquia religiosa do país, e não mais nos laços familiares.

A líder dissidente Maryam Rajavi, do Conselho Nacional da Resistência do Irã, afirmou que a escolha do filho do antigo líder rompe com os princípios políticos estabelecidos pela revolução. Segundo ela, “a regra clerical absoluta transformou-se efetivamente em uma monarquia hereditária ao colocar Mojtaba Khamenei no poder”.

A Assembleia de Peritos realizou a eleição em uma sessão emergencial de forma virtual poucos dias depois da morte de Ali Khamenei. Durante o encontro, os 88 integrantes do órgão aprovaram o nome de Mojtaba por maioria simples. Em seguida, autoridades iranianas apresentaram a decisão como uma medida necessária para garantir a continuidade institucional em meio à escalada militar na região.

A Constituição iraniana estabelece que o líder supremo deve ter autoridade religiosa reconhecida e experiência administrativa. Mojtaba Khamenei é um clérigo formado em seminários religiosos. No entanto, nunca ocupou cargos públicos nem disputou eleições. Ao longo da carreira, atuou principalmente nos bastidores da estrutura de poder do país.

A Revolução Iraniana

A Revolução Iraniana derrubou a monarquia imperial em 1979 e deu origem à República Islâmica. O país estava sob o governo do xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos e defensor de um projeto de modernização acelerada. Apesar do crescimento econômico em parte do período, o regime enfrentava críticas por autoritarismo, desigualdade social e repressão política.

Segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, o amplo descontentamento com o regime do xá reuniu diferentes setores da sociedade que tinham o mesmo objetivo: derrubar o governante. 

O regime de Mohammad Reza Pahlavi era percebido por muitos setores da sociedade como autoritário e excessivamente alinhado aos interesses dos EUA. O movimento revolucionário reuniu uma coalizão bastante diversa, que incluía clérigos xiitas, estudantes, intelectuais, setores da classe média urbana, trabalhadores, comerciantes tradicionais dos bazares e também grupos de esquerda e nacionalistas que se opunham à monarquia“, afirma. 

Parte da insatisfação vinha de décadas anteriores. Em 1953, o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh foi derrubado em um golpe apoiado por serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido, depois de nacionalizar a indústria petrolífera. O episódio reforçou entre muitos iranianos a ideia de que potências estrangeiras influenciavam diretamente a política do país.

Durante os anos 1970, a oposição ao regime cresceu. Partidos políticos eram restritos, e denúncias de censura e repressão eram frequentes. Nesse contexto ganhou destaque o líder religioso xiita Ruhollah Khomeini, exilado desde 1964 depois de criticar o xá. Mesmo fora do país, seus discursos circulavam clandestinamente no Irã e ajudavam a mobilizar a oposição.

Com o crescimento da crise política e sem conseguir controlar os protestos, o xá deixou o Irã em janeiro de 1979. Pouco depois, Khomeini retornou do exílio e passou a liderar o movimento revolucionário no país. Em 11 de fevereiro de 1979, as Forças Armadas anunciaram neutralidade no conflito político, o que abriu caminho para que os revolucionários assumissem o controle das principais instituições do Estado.

Depois da queda do governo, um referendo nacional aprovou a criação da República Islâmica. A nova constituição instituiu um sistema político baseado na liderança religiosa e no princípio do Velayat-e Faqih, que concede grande autoridade a um líder religioso supremo.

Rudzit afirma que o sistema político criado depois da Revolução de 1979 combina instituições republicanas com uma autoridade religiosa superior. “No topo está o líder supremo, principal autoridade do Estado e que exerce controle sobre áreas estratégicas como as Forças Armadas, a política externa, o Judiciário e os principais órgãos de supervisão política. O presidente, eleito por voto popular, chefia o governo e é responsável pela administração cotidiana do país, incluindo política econômica e gestão ministerial”, diz o especialista.  

Nos anos seguintes, o novo regime consolidou o poder, afastando grupos liberais e de esquerda que também haviam participado da revolução. Instituições religiosas passaram a ocupar posição central no Estado, e novas leis baseadas na interpretação islâmica influenciaram a política e a vida pública no país. A revolução mudou profundamente o sistema político iraniano e redefiniu sua relação com o Ocidente.

Nos meses seguintes, setores do clero consolidaram o controle do novo regime e afastaram antigos aliados da revolução (especialmente grupos de esquerda, nacionalistas e intelectuais) das posições de poder.

Na economia, Rudzit afirma que, depois da revolução, “o petróleo tornou-se a principal fonte de receitas públicas, enquanto o governo ampliou sua presença em setores-chave da economia por meio de empresas públicas“. 

Para o professor, a economia iraniana também passou a enfrentar limitações decorrentes de sanções internacionais dos Estados Unidos. “A relação entre o Irã e EUA se deteriorou depois da queda do xá, que era aliado estratégico de Washington na região. A relação tem sido marcada por boicotes econômicos, disputas em torno do programa nuclear iraniano, rivalidades geopolíticas no Oriente Médio”, disse.

Segundo Rudzit, “o governo passou a promover uma forte islamização da vida pública”. Leis consideradas incompatíveis com a nova ordem religiosa, como a Lei de Proteção à Família (1967), que ampliava direitos das mulheres no casamento, foram revogadas.

Comitês revolucionários ligados às mesquitas passaram a patrulhar as ruas, fiscalizando códigos de vestimenta e comportamento e perseguindo opositores. Ao mesmo tempo, foi criada a milícia que daria origem à Guarda Revolucionária Islâmica, responsável por proteger a revolução e conter possíveis ameaças internas.

Culturalmente, a sociedade tornou-se mais complexa e urbanizada, combinando normas religiosas do regime com transformações sociais típicas de uma sociedade moderna e conectada. No plano político, embora o sistema imponha limites institucionais à competição eleitoral e à participação de certos grupos, eleições para cargos como presidente e parlamento continuam mobilizando amplos setores da população“, diz Rudzit.

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