Sistemas biológicos sobrevivem porque possuem redundância para funções críticas: se um sistema falha, existem mecanismos que assumem a função vital imediat Sistemas biológicos sobrevivem porque possuem redundância para funções críticas: se um sistema falha, existem mecanismos que assumem a função vital imediat

Resilient Design: o que a biologia pode ensinar às marcas sobre sobrevivência em mercados voláteis

2026/03/15 17:01
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Sistemas biológicos sobrevivem porque possuem redundância para funções críticas: se um sistema falha, existem mecanismos que assumem a função vital imediatamente.  — Foto: Getty Images Sistemas biológicos sobrevivem porque possuem redundância para funções críticas: se um sistema falha, existem mecanismos que assumem a função vital imediatamente. — Foto: Getty Images

Para sobreviver e prosperar em um mundo que muda constantemente, as marcas precisam se atentar à sua rigidez estrutural. Os modelos de gestão tradicionais, inspirados na engenharia e na mecânica, pressupõem que as empresas devem funcionar como máquinas, ou seja, sistemas lineares, previsíveis, à base do comando e controle, sem espaço para qualquer erro e com pouca variação. No entanto, máquinas quebram sob pressão extrema e diante de variações fora do esperado. E é aqui que está o grande risco.

Os sistemas vivos funcionam de forma diferente: eles são ao mesmo tempo propositivos (com mutações e recombinações) e se adaptam. Neste sentido, a Biomimética (bio=vida, mimesis=imitação) - ciência que estuda as estratégias da natureza para aprender e aplicar seus princípios - dialoga com um movimento chamado Resilient Design para traduzir essa lógica para a estratégia organizacional. Em vez de buscar a máxima eficiência em poucas métricas de forma rígida, porém frágil, esse design foca na construção da capacidade de um sistema (uma marca, uma empresa, uma equipe) de absorver impactos, aprender com os distúrbios e se reorganizar sem perder sua essência.

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Na natureza (da qual fazemos parte), a capacidade de manter funções críticas em meio aos distúrbios se chama resiliência. Não se trata de “aguentar a porrada sem reclamar”. A resiliência é construída por meio da diversidade, da redundância e da descentralização.

Diversidade como colchão de proteção e força inovadora

A primeira lição fundamental dessa transição é enxergar a diversidade não apenas como uma métrica social-política, mas no seu sentido ligado a bilhões de anos de evolução, de proteção e força inovadora. Por um lado, ela um “colchão” de proteção porque, frente a distúrbios significativos, um grupo de organismos muito homogêneo está mais suscetível a ser impactado do que um grupo heterogêneo - seja por não conseguir perceber riscos e oportunidades, seja serem todos infectados por determinada doença ou qualquer outro motivo natural.

Por outro lado, a diversidade é uma força inovadora porque a evolução depende das mutações, recombinações, variações que são colocadas à prova (mesmo sem sabermos) a todo momento. Diferentes hábitos, habilidades, percepções, experiências, pontos de vista são fundamentais para evitar riscos, aproveitar oportunidades e ocupar novos nichos (sejam ecológicos ou de mercado).

Redundância não é desperdício

Outro pilar essencial é o entendimento de que a redundância não é um desperdício, mas um seguro de vida. A gestão moderna frequentemente tenta eliminar qualquer reserva para reduzir custos, seguindo a doutrina do gerenciamento enxuto (relembro aqui os cortes de verba de manutenção das comportas e diques do Guaíba, em Porto Alegre). Contudo, sistemas biológicos sobrevivem porque possuem redundância para funções críticas: se um sistema falha, existem mecanismos secundários que assumem a função vital imediatamente.

O Resilient Design sugere que as marcas possuam portfólios diversificados e processos logísticos com alternativas de contingência (redundâncias) para aquilo que é crítico. Ter caminhos sobrepostos permite que a organização absorva choques econômicos sem que sua atividade principal entre em colapso, garantindo a continuidade operacional em momentos de crise. Dados da McKinsey indicam que interrupções nas cadeias de suprimentos podem custar às empresas, em média, 45% do lucro de um ano ao longo de uma década.

A resposta descentralizada

Por fim, a resiliência biológica depende de uma inteligência distribuída e de respostas descentralizadas. Estruturas hierárquicas enfrentam um gargalo de tempo: a informação demora a chegar aos decisores e a decisão demora para retornar aos executores. Em organismos complexos, como polvos, ⅔ dos neurônios não estão centralizados e sim distribuídos pelos tentáculos (algo que tem servido de inspiração para as IAs mais modernas, que precisam de maior responsividade e menor gasto energético).

Mesmo em nós, humanos, muitos estímulos disparam respostas autônomas sem a necessidade de um comando central. Para as marcas, isso exige conferir autonomia real às equipes que estão na ponta do negócio. Equipadas com dados em tempo real e proximidade com o cliente, essas unidades devem ter autoridade para ajustar rotas, sem depender de ciclos de aprovação burocráticos que ignoram a velocidade da mudança externa.

Desenvolver marcas sob a ótica da Biomimética e do Resilient Design é aceitar que o controle total sobre o ambiente externo é uma ilusão que a biologia já descartou há eras. A verdadeira evolução reside em construir resiliência e transformar a inovação em um estado metabólico contínuo, permitindo que as empresas aprendam a pensar e agir como sistemas vivos.

*Gui Gennari é sócio da consultoria de inovação 1601, especialista e mestre em Biomimética pela Arizona State University e professor convidado da Singularity para este tema

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