Alexandre de Moraes diz que não recebeu mensagem do ex-banqueiro no dia da 1ª prisão e sugere que destinatário foi político do Tocantins, só que mulher do magisAlexandre de Moraes diz que não recebeu mensagem do ex-banqueiro no dia da 1ª prisão e sugere que destinatário foi político do Tocantins, só que mulher do magis

Mensagem de Vorcaro está em pasta com senador Irajá e Viviane Barci

2026/03/07 17:00
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O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes negou ter trocado mensagens com Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025, dia que o fundador do Banco Master foi preso pela 1ª vez pela operação Compliance Zero. Há, entretanto, muitos indícios de que houve de fato o diálogo por meio de aplicativo de mensagens entre o agora ex-banqueiro e o magistrado.

Vorcaro costumava escrever suas mensagens no aplicativo de notas do celular. Fazia uma imagem do que havia escrito e enviava essa captura de tela via WhatsApp –numa mensagem configurada para apagar automaticamente depois que o destinatário a abrisse.

Ocorre que o criador do Master se esqueceu de um detalhe que tornou vulnerável sua estratégia: todas as imagens que fazia da tela ficavam também arquivadas no álbum de fotos do celular, indicando o momento exato em que foram captadas. A Polícia Federal achou essas capturas de tela e os horários batiam com os das mensagens que o então banqueiro mandava para Alexandre de Moraes via WhatsApp.

É que a Polícia Federal também teve acesso à imagem da tela do celular de Vorcaro, inclusive do aplicativo WhatsApp. Essas imagens da tela foram reveladas pela jornalista Malu Gaspar.

Mesmo com todos esses indícios, o magistrado passou os 2 últimos dias negando ter sido o receptor das mensagens de Vorcaro. Falou com vários políticos e jornalistas na 6ª feira (6.mar.2026). Disse que as imagens das mensagens de texto do ex-banqueiro estavam arquivadas pela Polícia Federal em pastas junto com contatos telefônicos de outras pessoas no material extraído do celular de Vorcaro. Logo, as mensagens não teriam sido remetidas a ele, Alexandre de Moraes.

A mensagem mais comprometedora é a que Vorcaro pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Foi enviada às 17h26 de 17 de novembro de 2025, poucas horas antes de o então banqueiro ser preso pela Polícia Federal.

O Poder360 notou um detalhe importante a respeito de onde está arquivada a imagem desse texto de Vorcaro. O arquivo está repetido em duas pastas no acervo que a PF enviou para a CPMI do INSS. Numa dessas pastas, está também arquivado o cartão de contato telefônico do senador Irajá (PSD-TO), filho da ex-senadora Kátia Abreu. Numa 2ª pasta, a mesma imagem aparece junto com o cartão de contato da advogada Viviane Barci, mulher de Moraes.

Moraes sugere que as mensagens de Vorcaro teriam sido enviadas ao senador Irajá porque a imagem do bloco de notas estava numa pasta com o contato do político. Só que esse mesmo argumento então poderia ser usado para sustentar que a mensagem teria sido destinada a Viviane Barci.

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Pasta no acervo de dados que a PF enviou para a CPI do INSS com 2 arquivos: 1 é a mensagem comprometedora de Vorcaro antes de ser preso e 1 é o cartão com dados de contato do senador Irajá. Para Moraes, isso seria indicação de que a mensagem foi para o senador
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Pasta no acervo de dados que a PF enviou para a CPI do INSS com 3 arquivos: 1 é a mensagem comprometedora de Vorcaro antes de ser preso, 1 é o cartão com dados de contato da advogada Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes e 1 são anotações de nomes de advogados no que parece ser um guardanapo

O argumento de Moraes é frágil do ponto de vista técnico. Os dados baixados do celular de Vorcaro aparentemente foram salvos pela PF em diversas pastas de maneira aleatória –é o que se observa nos cerca de 700MB de arquivos enviados à CPMI do INSS e depois vazados para a mídia, inclusive para o Poder360. O fato de cartões de contatos estarem salvos em diversas pastas, numa 1ª análise, não indica nenhum tipo de relação entre esses vários conteúdos.

O senador Irajá mandou notas para todos os principais veículos de comunicação negando que tivesse recebido mensagens de Moraes. “A informação de que Daniel Vorcaro teria enviado qualquer mensagem ao senador Irajá é completamente inverídica. O fato de o senador eventualmente constar na lista de contatos de Daniel Vorcaro não significa absolutamente nada”, disse o político de Tocantins.

ATUAÇÃO FORA DA JURISDIÇÃO

Há mais um problema a ser enfrentado por Alexandre de Moraes. Ele soltou uma nota com os argumentos para se defender dizendo que se baseava em “análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS”. Ocorre que os vazamentos de dados pela CPI são ilegais do ponto de vista formal. Não estão disponíveis para análise técnica nem legal. Além disso, ao dizer que fez esse tipo de análise, o magistrado entrou num caso em que não atua –o relator do inquérito do Banco Master é o ministro André Mendonça. Na tarde de 6ª feira, Mendonça abriu um inquérito para investigar os vazamentos.

Não há um risco imediato para Moraes, pois ministros do Supremo só podem ser investigados pelo Senado se o presidente da Casa aceitar abrir um processo de impeachment. Não há indicação de que Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que preside o Senado, tenha intenção de seguir esse caminho agora.

O problema para Moraes é que o próprio Supremo pode investigar o que se passou. Se Daniel Vorcaro vier a delatar para tentar reduzir sua pena, será indagado sobre quem foram os destinatários de suas mensagens escritas no bloco de notas do celular. Se confirmar que mandou as imagens e textos para Moraes, o magistrado ficará ainda mais fragilizado.

A nota de Alexandre de Moraes o coloca numa situação de desconforto em relação a André Mendonça. Ao assumir a relatoria do caso Master, em 12 de fevereiro, Mendonça restringiu o acesso a informações só aos policiais federais diretamente envolvidos nas investigações. Nem mesmo superiores dos agentes poderiam tomar conhecimento das informações. Em 20 de fevereiro, o ministro autorizou o compartilhamento das informações da PF com a CPMI do INSS –informações essas que já estavam no Senado sob guarda da presidência da Casa desde antes de Mendonça assumir o caso.

Ao usar, como diz Morares, material que foi vazado (com o eufemismo “tornado público”) pela CPMI, o magistrado saiu de sua jurisdição e analisou dados do caso Master, cujo inquérito está sob o cuidado exclusivo de André Mendonça.

ACERVO DA CPMI DO INSS

A investigação sobre fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS recebeu cerca de 700MB de arquivos que estavam dentro de 1 ou mais celulares de Vorcaro. O ex-banqueiro teve 7 celulares apreendidos nas fases 1 e 2 da operação Compliance Zero. A PF não informou ao Congresso de quais celulares extraiu o conteúdo, que é incompleto.

A imagem da mensagem no bloco de notas que está causando controvérsia aparece repetida em duas pastas dos arquivos recebidos pela CPMI, como está mostrado nas imagens acima neste post.

Há também uma imagem numa dessas duas pastas com anotações feitas à mão no que parece ser um guardanapo de papel.

No papel, há 4 registros:

  • Marcela Mattiuzzo – advogada, sócia no escritório VMCA, e ex-chefe de gabinete da presidência do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica);
  • VMCA – escritório de advocacia especializado em concorrência, regulação econômica, tecnologia e compliance;
  • Rodrigo Mudrovitsch – advogado que tem excelente relação com o ministro Gilmar Mendes, é presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O ministro o elogiou quando foi indicado ao cargo;
  • Vitor Rufino – advogado no escritório Mudrovitsch Advogados.

Nada prova que essas imagens e arquivos tenham alguma relação entre si, exceto que tudo foi extraído de celulares de Daniel Vorcaro.

Moraes não explica na nota como a “análise técnica”  foi feita nem quem teria conduzido o procedimento para sustentar que possivelmente a mensagem de Vorcaro teria ido para outras pessoas e não para ele. O Poder360 questionou a assessoria do STF sobre o assunto. “É o que tem na nota” foi a resposta enviada a este jornal digital.

Leia abaixo a íntegra da nota de Moraes divulgada na 6ª feira (6.mar.2026) pelo STF:

Nota à imprensa

A Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal, por solicitação do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, informa:

“Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou  que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos.

“No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

“A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes.

“Os nomes e contatos das pessoas vinculadas aos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa”.

POLÍCIA FEDERAL SELETIVA

Em meio à controvérsia sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro, há também a atuação seletiva da Polícia Federal. A CMPI do INSS pediu acesso a dados do Banco Master que pudessem ter relação com fraudes em empréstimos consignados e com a Previdência Social.

A PF mandou para a CMPI só uma fração do que apreendeu até agora. No despacho para o colegiado do Congresso, mandou também dados que não têm relação com o INSS ––por exemplo, quase 2.000 páginas de texto reproduzindo em grande parte conversas pessoais de Vorcaro com uma namorada que teve nos anos de 2024 e 2025.

A PF também enviou para a CPMI dados só extraídos de celulares de Vorcaro. Não se sabe se esses 69 contatos foram os únicos que os peritos conseguiram extrair ou se a PF filtrou o que desejou repassar para o colegiado.

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