Acordar cedo na Serra Catarinense é um lembrete incômodo de que ainda sabemos pouco sobre nosso próprio país. O frio corta, a luz entra oblíqua pelas janelas, eAcordar cedo na Serra Catarinense é um lembrete incômodo de que ainda sabemos pouco sobre nosso próprio país. O frio corta, a luz entra oblíqua pelas janelas, e

Como os vinhos da Thera mudaram minha cabeça sobre a Serra Catarinense

2026/03/01 11:10
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Acordar cedo na Serra Catarinense é um lembrete incômodo de que ainda sabemos pouco sobre nosso próprio país. O frio corta, a luz entra oblíqua pelas janelas, e a paisagem prova que o Brasil é maior e mais diverso do que a maioria de nós imagina.

Foi assim minha manhã na Vinícola Thera, em Bom Retiro, no fim do ano passado, quando entendi que aquela visita não era apenas mais um bom roteiro de enoturismo.

Era um ponto de virada.

Não pelo hotel impecável, nem pelo restaurante – já chego lá. Mas porque, ao provar os vinhos em sequência, safra após safra, algo ficou claro: a Serra Catarinense deixou de ser um experimento. O que está acontecendo ali é projeto. Com método. Com ambição. E, principalmente, com vinho bom o suficiente para sustentar tudo isso.

Mas o que realmente diferencia a Thera não é só a hospitalidade. É a clareza do projeto. A vinícola faz parte de um ecossistema maior, a Fazenda Bom Retiro, que une vinho, natureza, arte e um braço residencial singular: os proprietários das casas podem produzir seus próprios vinhos, usando a estrutura, o conhecimento e a equipe da vinícola. Não é marketing. É enologia aplicada à vida real.

Esse entendimento não nasce do nada. Vem de longe. Vem da família Freitas, um sobrenome que está na origem da vitivinicultura de altitude no Brasil. Foi Dilor Freitas quem, ainda no fim dos anos 1990, teve a intuição (e a coragem) de apostar no vinho em Santa Catarina quando quase ninguém olhava para a serra com esse interesse. Dali nasceu a Villa Francioni, o projeto fundador e decisivo para a região.

Depois da morte de Dilor, o vinho não ficou como memória, virou continuidade. Seu filho João Paulo Freitas teve papel central na consolidação da Villa Francioni e, anos depois, deu um passo ainda mais ousado: criou, do zero, um ecossistema em torno do vinho. Assim nasceu a Fazenda Bom Retiro e, dentro dela, a Thera.

Hoje o projeto entra na terceira geração, com Abner Freitas como CEO da vinícola, dando continuidade ao trabalho construído ao lado de seu pai, João Paulo, que segue acompanhando cada etapa.

Nada ali soa improvisado. A Thera não tenta impressionar com pirotecnia arquitetônica ou discursos grandiloquentes. O impacto vem da soma. Do conjunto da ópera. A pousada é silenciosa, integrada à paisagem, elegante sem esforço. O restaurante é um capítulo à parte: pratica uma cozinha afinada com o território, sem a ansiedade de “inventar moda”. É produto, ponto, técnica e tempo. Algo raro hoje em dia.

Não por acaso, o Thera Wine Bar virou rapidamente um sucesso na região. Ali há cozinha com identidade e técnica. Luan Honorato, que comandou a cozinha do restaurante Nomade, do Nomaa Hotel, trocou Curitiba pela Serra Catarinense e vem fazendo um trabalho belíssimo: pratos precisos, produto em primeiro plano, e uma leitura muito madura do entorno. Nada de estrelismo. Tudo conversa com o vinho, comme il faut.

Mas o coração do projeto está na taça. E aqui a Thera se diferencia de vez.

A enologia de Átila Zavarize revela um entendimento fino do terroir: o respeito à acidez natural, a extração comedida, a madeira como coadjuvante. O resultado aparece na consistência, algo que só se percebe quando se provam várias safras lado a lado.

Provei uma bateria ampla, com atenção especial aos brancos e espumantes, que são, na minha leitura, o grande trunfo da casa. O Chardonnay é um dos brancos flagship da casa.

Há algo de muito bem resolvido ali: fruta precisa, acidez viva, madeira em segundo plano. O 2024 está jovem, vibrante e mineral; o 2021 mostra equilíbrio e profundidade; e o 2017, ainda vivo e elegante, entrega algo raro no Brasil: capacidade real de guarda.

Nos espumantes, a surpresa é ainda maior. Perlage finíssima, domínio do método tradicional, precisão de dosagem. O Blanc de Blancs Extra Brut é sedoso, persistente, refinado. Está, sem exagero, entre os melhores espumantes feitos hoje no País. Não por patriotismo. Por prova cega.

Entre os tintos, vale uma atenção especial ao Pinot Noir 2020, suculento, preciso, com taninos delicados e fruta limpa. Um marco. O Montepulciano, ainda pouco comum por aqui, mostra estrutura e identidade. E o Syrah surpreende pela textura e pelo frescor, sem cair na caricatura do excesso.

O mais impressionante, porém, não é um rótulo isolado. É a consistência. Provar várias safras do mesmo vinho e encontrar identidade é sinal de maturidade técnica. De entendimento do terroir. De gente que sabe o que está fazendo. De legado aplicado ao presente.

Saí da Thera com uma certeza: a Serra Catarinense não está mais pedindo licença. Está oferecendo vinho de nível internacional, com sotaque próprio.

Minha percepção sobre os vinhos da região mudou, e muito, para melhor. Não é hype. Não é discurso. É líquido. E no vinho, não há argumento mais convincente do que esse.

Luiz Gastão Bolonhez é especialista em vinhos. Compartilha suas experiências no Instagram e é curador de vinhos nos leilões da Blombô.

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