Aos 86 anos, o aiatolá Ali Khamenei é hoje o eixo em torno do qual gira a República Islâmica do Irã. No cargo desde 1989, ele não é apenas o chefe de Estado de fato: é o árbitro final de todas as decisões estratégicas do país, com controle direto sobre as Forças Armadas, o programa nuclear, a política externa e os serviços de inteligência.

Trata-se de um poder que vai além da política tradicional. O sistema iraniano é estruturado a partir do princípio do velayat-e faqih - a “tutela do jurista islâmico” - que confere ao líder supremo uma autoridade religiosa e política quase incontestável, equivalente a um “papa” do xiismo, com influência que extrapola as fronteiras do Irã.

Khamenei, alvo dos ataques dos Estados Unidos neste sábado, 28 de fevereiro, e que segundo 0 ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, está vivo, foi um dos quadros centrais da revolução de 1979 que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi e colocou fim à monarquia apoiada pelos Estados Unidos.

Desde então, Khamenei atravessou quatro décadas de sanções, conflitos regionais, negociações nucleares e ondas recorrentes de protestos internos — sempre optando pela repressão dura quando o regime se viu ameaçado.

Ao longo desse período, consolidou uma arquitetura de poder baseada na lealdade da Guarda Revolucionária (IRGC) e das forças paramilitares Basij, que funcionam como o seguro de vida do regime. São esses grupos que garantem a sobrevivência política de Khamenei diante de crises econômicas, isolamento internacional e revoltas populares.

Dessa vez, no entanto, Khamenei enfrenta uma onda de protestos que corroeu seu poder e tem como principal estopim uma grave crise econômica, marcada pela desvalorização de cerca de 50% do rial em apenas seis meses e por uma inflação anual em torno de 40%.

As sanções impostas pelos Estados Unidos desde a saída do acordo nuclear, em 2018, sufocaram a economia iraniana, isolando o país do sistema financeiro internacional e impedindo o acesso regular a moedas estrangeiras.

Como resultado, o Estado perdeu o controle efetivo sobre sua própria moeda e sobre as reservas cambiais, passando a operar por meio de um sistema financeiro paralelo, acessível apenas a grupos ligados ao regime.

Apesar de o Irã possuir enormes reservas de petróleo e ser um dos maiores produtores da OPEP, essa riqueza não se converte em bem-estar para a população.

A economia funciona de forma distorcida. A maioria dos cidadãos enfrenta escassez de alimentos, racionamento de água, eletricidade e combustível, além de salários corroídos pela inflação.

Membros do regime, no entanto, se beneficiam de subsídios, contrabando e corrupção, especialmente no mercado de energia. Os preços dos alimentos superam a renda das famílias, forçando a redução do consumo e o esgotamento das poupanças.

Esse colapso econômico atingiu todas as classes sociais, inclusive comerciantes tradicionais do Grande Bazar de Teerã, historicamente aliados do regime, o que deu aos protestos uma dimensão inédita.

Diferentemente de levantes anteriores, as manifestações atuais reuniram pobres, classe média, jovens, idosos e diferentes grupos étnicos, refletindo a percepção generalizada de que a economia iraniana chegou ao limite e que o regime perdeu a capacidade de administrar o país e garantir condições mínimas de vida à população.

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