O governo do Reino Unido ordenou que um consórcio chinês de private equity venda sua participação majoritária na fabricante de chips FTDI (Future Technology Devices International) até 7 de fevereiro, desfazendo um negócio já concluído sob a argumentação de questões de segurança nacional, 3 anos depois de sua finalização.
A JAC Capital (Beijing Jianguang Asset Management) liderou o grupo que finalizou a aquisição de 80,2% da FTDI por US$ 414 milhões em dezembro de 2021. No entanto, em novembro de 2024, Londres invocou a NSI Act (Lei de Segurança Nacional e Investimentos) para exigir a alienação, forçando a saída dos investidores chineses.
Essa intervenção retroativa evidencia a crescente hostilidade regulatória enfrentada pelo capital chinês no setor de tecnologia europeu, à medida que os governos aplicam cada vez mais leis de segurança para desmantelar transações transfronteiriças consolidadas.
O cronograma da intervenção aproveita a NSI Act, que entrou em vigor em janeiro de 2022, mas permite que o governo revise transações que remontam a novembro de 2020. As autoridades iniciaram uma investigação sobre o negócio da FTDI em novembro de 2023 e emitiram a ordem final de alienação em 5 de novembro de 2024, sob o argumento de ameaças à segurança nacional.
Embora o governo tenha inicialmente estabelecido um prazo de 1 ano para a venda, terminando em novembro de 2025, o consórcio obteve uma prorrogação por causa das dificuldades de execução.
Uma fonte próxima à transação disse à Caixin que o consórcio chinês solicitou o adiamento porque encontrar um comprador tem se mostrado complexo. A fonte fala em possíveis novos atrasos, observando que o processo de verificação do governo do Reino Unido para novos compradores –que abrange o histórico dos acionistas, as fontes de financiamento e os objetivos da aquisição– é demorado.
A venda forçada ameaça causar prejuízos financeiros aos investidores chineses. A FTDI, especializada em chips de ponte USB, teve um bom desempenho inicial, registrando receita de US$ 90 milhões em 2023.
No entanto, a investigação do Reino Unido abalou a confiança do mercado, levando os distribuidores a reduzirem os pedidos. Combinado com um ambiente macroeconômico mais fraco, o desempenho da empresa caiu significativamente, disse a fonte, alertando que uma venda forçada nessas condições provavelmente prejudicaria os interesses do consórcio chinês.
Liu Xing, sócio do escritório de advocacia Beijing Fengli, disse à Caixin que a JAC Capital enfrenta um dilema. Se venderem imediatamente, os compradores cientes da determinação do governo podem suprimir o preço, ignorando os fundamentos da empresa. Se adiarem a venda além do prazo, o governo do Reino Unido poderá assumir o controle do processo de desinvestimento, resultando potencialmente em uma venda a preço baixo por uma avaliação ainda menor.
O consórcio tentou contestar a ordem judicialmente. Depois de receber a notificação de desinvestimento, o grupo solicitou uma revisão judicial e uma liminar, argumentando que o principal produto da FTDI é um chip genérico que não representa ameaça à segurança nacional britânica. No entanto, o Tribunal Superior de Londres rejeitou o pedido em fevereiro de 2025.
Especialistas jurídicos sugerem que, embora o judiciário do Reino Unido seja independente, os tribunais tendem a acatar a decisão do governo em questões de segurança nacional. Liu observou que, embora o consórcio pudesse processar por violação de direitos de propriedade privada, superar uma alegação de segurança nacional é difícil, custoso e demorado.
A FTDI, fundada em 1992 em Glasgow, é líder global em chips de ponte USB, com uma participação de mercado de cerca de 20%. Embora registrada no Reino Unido, sua sede operacional fica em Cingapura.
Os compradores chineses, incluindo a Electra Technologies, listada na Bolsa de Shenzhen, tinham como alvo a empresa para preencher uma lacuna no mercado chinês de chips de interface de alta tecnologia.
Este caso espelha a experiência da Nexperia, subsidiária holandesa da fabricante chinesa de smartphones Wingtech Technology. Em novembro de 2022, o governo do Reino Unido utilizou a mesma lei de segurança para forçar a Nexperia a vender sua participação majoritária na Newport Wafer Fab, que acabou sendo vendida para a Vishay, sediada nos EUA.
Mais recentemente, em setembro de 2025, o governo holandês citou a segurança econômica para restringir o controle da Nexperia sobre seus próprios ativos, o que levou à suspensão do fundador da Wingtech, Zhang Xuezheng, de seu cargo na empresa.
Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 5.fev.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.


