Veículos conceituados como Bloomberg e Wall Street Journal recorrem cada vez mais a dados criados por plataformas de mercados de previsão para trazer indicativos e probabilidades sobre algum fato referido em seus textos.
Essas plataformas de apostas sobre “o futuro” se tornaram uma nova referência para reportagens sobre política, eleições e mercado financeiro. No entanto, essa rápida adoção traz riscos para a credibilidade dos veículos e, no limite, podem levar a interferência em eleições e na dinâmica da política local e global.
Os mercados de previsão são plataformas que negociam “contratos” que funcionam como apostas. Cada fração de contrato paga US$ 1 se a aposta for correta e US$ 0 se for errada. O valor pago para comprar cada fração é uma representação da probabilidade atribuída pelos apostadores à chance de que determinado fato irá acontecer.
Por exemplo, ontem (3ª feira, 3 de fevereiro) os apostadores estavam pagando US$ 0,91 pela chance de ganhar US$ 1 se não houver mudança na taxa de juros na próxima reunião do Fed, o banco central dos EUA, marcada para 18 de março. Ou seja, atribuem uma chance de 91% de a taxa ser mantida como está.
Ao aplicar a lógica das apostas a acontecimentos do mundo da política e da economia, criando “mercados” sobre a opinião e percepção das pessoas, essas plataformas dizem dar materialidade à “sabedoria das massas”. Esse conceito defende que a avaliação de um conjunto diverso e independente de pessoas tende a ser mais precisa do que a de um único especialista.
A tese ganhou força e popularidade nas eleições norte-americanas de 2024, quando os principais mercados de previsão traziam um percentual maior de chance de vitória de Donald Trump sobre Kamala Harris, contrariando a maior parte dos resultados das pesquisas eleitorais –resultado que se concretizou nas urnas.
Com isso, e também embalados pela popularização dos sites de apostas em geral, os mercados de previsão vêm crescendo de forma acentuada nos últimos anos, deixando de pertencer a um nicho de apostadores para cair no mainstream.
Em janeiro, a Dow Jones anunciou uma parceria com o Polymarket, uma das principais plataformas de mercados de previsão, para receber e exibir dados em tempo real nos produtos do grupo, incluindo Wall Street Journal, Barron’s, Market Watch e Investor’s Business Daily. A rede de televisão CBS também fez uma parceria com o Polymarket para exibir as cotações de apostas ao vivo na transmissão do Globo de Ouro.
CNN e CNBC firmaram parcerias com outra plataforma, a Kalshi, para incorporar dados e probabilidades às suas coberturas. A Forbes anunciou a criação de seu próprio mercado de previsão, com o intuito de aumentar o engajamento do público em seu site.
A moda ainda não aterrissou com força no Brasil, mas a chance é grande de a cobertura das eleições ter insights sobre os resultados nos quais apostadores do mundo todo estão arriscando seus dólares. A título de curiosidade, na 3ª feira (3.fev.2026), o mercado da eleição brasileira no Polymarket indicava 53% de chance de Lula (PT) ser reeleito presidente, contra 27% de Flávio Bolsonaro (PL), 7% de Renan Santos (Missão), 6% de Ratinho Júnior (PSD) e 5% de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O conceito de sabedoria das massas e o grande volume de dados agregados por essas plataformas, de fato, podem trazer insumos valiosos para o jornalismo. São excelentes para quantificar referências em cenários difusos de temas sobre os quais não há pesquisas qualificadas e podem oferecer nuances em análises mais complexas, que bebem de diversas fontes.
Mas a adoção acelerada dos mercados de previsão como fonte confiável de informação vem com muitos riscos embutidos à credibilidade do jornalismo profissional.
A começar pela própria fragilidade dessas plataformas em constituir um mercado diverso, independente e realmente representativo que dê suporte ao conceito de sabedoria das massas. Os 2 principais mercados de previsão –Polymarket e Kalshi– ainda são populados por perfis muito específicos de pessoas, com uma super-representação de homens, jovens, apostadores de outras áreas, aficionados do universo das criptomoedas e traders do mercado financeiro. Só isso já constitui um viés de amostra muito superior a qualquer pesquisa eleitoral séria, para ficar num único exemplo.
Mas há riscos ainda maiores. A maioria dos mercados nessas plataformas têm uma liquidez –volume de participantes e dinheiro investido– muito baixa, o que os deixa suscetíveis a grandes oscilações e manipulações de preço que destroem o propósito informativo das suas probabilidades.
Pior, abrem espaço para que especuladores com bolsos nem tão cheios assim sejam capazes de distorcer os mercados para passar percepções incorretas que podem transbordar para o jornalismo e virar informação com carimbo de credibilidade.
E pior ainda: os participantes desses mercados são completamente anônimos. Não é necessário nenhum tipo de identificação para criar uma conta, depositar dinheiro ou criptomoedas e começar a apostar nessas plataformas.
Ou seja, agentes completamente anônimos podem investir esforços e muito dinheiro para alterar a percepção sobre temas relevantes da economia e da geopolítica mundial. Manipulando certos mercados, podem ganhar quase automaticamente a validação de veículos jornalísticos sérios, alimentando um ciclo de informações falsas que pode afetar, no limite, eleições e políticas públicas mundo afora.
É preciso muito cuidado nas redações ao utilizar dados dos mercados de previsão para conseguir informar corretamente os leitores sobre o que aqueles números realmente representam. Simplesmente incorporar os dados às reportagens, como as redes esportivas vêm fazendo com as cotações de apostas em suas transmissões, coloca em risco não só a credibilidade do veículo, mas toda a prática profissional do jornalismo.
O risco à credibilidade, inclusive, não afeta só o jornalismo. Já há casos de suspeitas de insider trading –uso de informações privilegiadas para ganhar dinheiro nas plataformas– de pessoas com posições no governo e nas Forças Armadas. Enquanto no mercado financeiro o insider trading é fortemente fiscalizado e punido, nos mercados de previsão e em todo o universo que eles abarcam não há ainda nenhuma salvaguarda.
Voltando ao jornalismo, não há, por exemplo, regras específicas nos códigos de conduta sobre a interação dos jornalistas com os mercados de previsão. Profissionais em algumas coberturas estão acostumados a receber informações políticas e econômicas em 1ª mão. Poderiam se beneficiar financeiramente usando essas informações contra os princípios éticos da profissão.
A velocidade de crescimento dessas plataformas em números de apostadores, volume de dinheiro e ascendência sobre o debate público não está sendo acompanhada pelas regulações necessárias.
As empresas de mídia e jornalismo estão pegando esse trem já em movimento. Precisam de cuidado para não serem atropeladas logo de cara.


