Existem diversos tipos de advogados, principalmente na área criminal. Há os que consideramos lobistas, os que têm mais vida acadêmica do que prática no direito,Existem diversos tipos de advogados, principalmente na área criminal. Há os que consideramos lobistas, os que têm mais vida acadêmica do que prática no direito,

OPINIÃO. Os erros do Judiciário e os erros sobre o Judiciário

2026/01/30 07:46

Existem diversos tipos de advogados, principalmente na área criminal. Há os que consideramos lobistas, os que têm mais vida acadêmica do que prática no direito, e ainda os advogados de Tribunal.

São profissionais distintos, de capacidades díspares, embora exerçam a mesma profissão e tenham igual importância. Até o lobista pode ter lá sua utilidade, desde que não cometa crimes nem subverta a ética profissional.

Em regra, apenas o advogado de Tribunal tem como característica aquilo que meu querido amigo e mestre Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, a quem dedico esse texto, chama de “advogado com cheiro de cadeia”.

E o que seria isso? Traduzo a frase do amigo como “o advogado que se preocupa com as agruras e complexidades da alma humana e, na prática dos processos, com o erro judiciário”.

Em regra, este é o advogado briguento, falador – muito poucos grandes oradores – que entornam os olhos mais em livros de contos e romances, nas esquinas e nos transeuntes do que nas teorias alemãs do direito.

E assim se comportam para se abastecerem, pois a vida não é tão simples como pensam as pessoas, e errar é da natureza nossa, a natureza humana.

Como sou um advogado que vou a Brasília de cara fechada, sentindo-me melhor nos corredores dos Tribunais estaduais e federais do que em convescotes à beira lago, escrevo esse texto pois vejo, com medo, que as liberdades democráticas estão em esgrima – e que anos e anos de evolução do direito, além dos grandes traumas nacionais, não nos fizeram aprender nada. Absolutamente nada.

Acostumou-se a imprensa com o método Sergio Moro de tocar um processo.

Falo dos vazamentos ilegais, pensados para influenciar eleições, satisfazer amigos da imprensa que com seus “furos de reportagem” se tornam figuras úteis e fiéis aos interesses políticos dos agentes da lei, como também ganham respeito e sobem em suas carreiras dentro das redações por fomentarem a informação e, com ela, os patrocinadores, o número de leitores e/ou telespectadores. Isso é do jogo, apenas a primeira parte não é.

Ter fontes e o sigilo jornalístico são a base de um país livre. Assim como o advogado deve manter sigilo sobre seus clientes e o juiz de direito respeitar as leis e ter cuidado para não expor as pessoas enquanto são inocentes.

É preciso lembrar que o Estado, nas investigações criminais, acessa segredos particulares, celulares, contas bancárias, conversas com filhos e amantes, esposas e pais, sobre doenças, recuperações, paixões e dores.

Quando ocorre a quebra de um sigilo personalíssimo, um agente da polícia federal ou policial civil acessa toda a vida dos investigados. Por isso o sigilo é a regra, determinante e inegociável, e o Juiz é o guardião desse sigilo.

Mas então, como a imprensa coloca como suspeito um juiz que decreta o sigilo em uma investigação, justamente quando o assunto investigado só pode sê-lo pelo acesso a informações bancárias, fiscais, troca de e-mails e mensagens?

Queria a imprensa que o Juiz descumprisse a Lei? Será que a imprensa brasileira quer a relativização do sigilo? Por que o sigilo virou escândalo?

Pensemos sobre qual seria o próximo sigilo a sucumbir.

A imprensa reclama do sigilo para cavalgar suas verdades ou para seguir comprometida com as primeiras informações – que na maioria das vezes foram obtidas em função de um outro sigilo, o jornalístico, com o qual jamais devemos tergiversar.

Mas criticar um juiz por respeitar a lei já parece um pouco demais, ainda mais quando o juiz respeitou a lei quanto ao sigilo processual, que resguarda a intimidade de pessoas presumidamente inocentes, como também o bem estar da investigação, ou seja, que investigados já sabidos ou potenciais não saibam que seus “delitos” possam estar prestes a ser descobertos.

Trata-se de ordem que emana do art. 20 do Código de Processo Penal: A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade.

Aqui entrarei numa agrura e, como me disponho a argumentar de modo claro, não posso silenciar. Sou amigo fraternal do advogado Augusto de Arruda Botelho, e por isso eu sabia que ele iria para o jogo final da Copa Libertadores da América, nessa hercúlea tentativa do Palmeiras ter, algum dia, um título Mundial. Quando surgiu a história do jatinho, pensei comigo: se existem duas pessoas que não são burras, são justamente o Augusto e o Ministro.

E por que pensei assim? Augusto já foi Secretário Nacional de Justiça, e uma de suas funções era justamente fazer a interface entre as escolhas do Executivo para os Tribunais, os candidatos e os próprios Tribunais. Precisaria ele, para ter acesso ao Min. Toffoli, entrar em um jatinho e ainda para ver o Palmeiras?

Achei estranho, mas não falei com ele sobre o tema.

Foi quando ontem a imprensa publicou que o processo fora sorteado para o Ministro Toffoli apenas às 18h13m (hora Brasil), portanto depois do pouso em Lima, ou seja, teria Augusto falado sobre um caso, na frente de outras pessoas, com o Juiz que não era ainda o Juiz da causa e que só foi incumbido depois de um sorteio? Não me soa realístico. Mesmo.

Sobre o resort, a coisa se complica ainda mais. O Min. Toffoli, segundo informações públicas, tem oito irmãos. Dois deles, mais velhos, teriam investido 370 mil reais (em conjunto) em um empreendimento, e outra pessoa também teria adquirido outras cotas; certa pessoa seria proprietária de um fundo que, vai se desvelando, teria relações com o Banco Master.

Primeiro ponto: o Banco Central não sabia disso, mas os irmãos do Ministro deveriam saber sobre algo de errado?

Não sei nada sobre a vida financeira dos irmãos do Min. Dias Toffoli, mas 370 mil reais, embora seja um bom dinheiro, não é algo irreal para a classe média brasileira, lembrando-se que qualquer carro mediano custa 120 mil reais nos dias de hoje. E está-se falando de duas pessoas que juntas investiram 370 mil reais.

Chamou-me a atenção outro fato.

Narra-se sobre o investimento no resort como se os irmãos do Ministro o tivessem construído (Resort Tayayá foi construído pela família do ministro Dias Toffoli no Paraná), mas verifico em simples pesquisa na internet que o empreendimento teve sua construção iniciada em 2006, muitos anos antes do aporte de 370 mil reais pelos irmãos do Ministro.

E então, o detalhe mais pitoresco sobre as narrações jornalísticas: ao tempo do lançamento do projeto, o Ministro Toffoli estava a três anos de se tornar integrante do STF. Viria a ser nomeado apenas em outubro de 2009.

Ou seja, não foram seus irmãos que construíram e empreenderam – e sim, adquiriram cotas no correr da sua materialização – os valores não são suspeitos, e o MPF da Lava Jato já investigou o tema e nada encontrou de ilegal.

(Nessa fase do texto, estou quase ligando para os meus dois irmãos e perguntando com quem andam conversando, fazendo negócios e se se adiantaram ao Banco Central para saber sobre a lisura de seus possíveis conversadores. Sugiro que os leitores façam o mesmo).

Espero tê-los provocado. Esta é a função do advogado criminalista, que neste caso, apenas ousa um paralelo com a construção do inimigo analisada por Umberto Eco, e que infelizmente anda de mãos dadas com o noticiário nacional desde sempre.

Na defesa junto aos Tribunais, já vi um cliente ser acusado de manipular armas e ser um simpatizante do nazismo e, quando estudei os autos, lá estavam os fatos: tinham encontrado a caixa de uma arma de chumbinho em seu quarto e os artefatos nazistas eram de um trabalho escolar… Por isso, depois de ler qualquer matéria, procuro os fatos e me pergunto: isso faz sentido?

Para terminar. O Brasil almeja um sistema de Justiça claro, limpo, em que banqueiros, garis e professores sejam tratados e tenham as mesmas oportunidades de serem ouvidos. Um País em que a defesa seja derrotada apenas por argumentos sólidos e com base em fatos comprovadamente incontestáveis, e onde ninguém seja previamente condenado, esse câncer que tinge a história da Justiça.

Particularmente, sou contra a confecção de um código de conduta pelo simples fato de que, se precisamos de um código por esse motivo, é porque nos perdemos no mais elementar, que é saber se comportar e respeitar as liturgias do cargo.

É claro que me incomodo com os convescotes e sei que os leitores também se incomodam que bancos, empreiteiras, advogados e a “comunidade jurídica” e política se encontrem fora do Brasil para discutir o Brasil, e, depois dos eventos, frequentem as mansões dos patrocinadores que, pasme-se, litigam nos Tribunais. Este incômodo é natural e saudável.

O que não é natural é a imprensa servir um menu diário de fatos isolados, insinuando uma conexão escandalosa entre eles, em vez de fazer o trabalho correto: ligar os pontos e, aí sim, acusar de modo direto.

Julguemos o Judiciário com Justiça – por seus erros, e há muitos – assim como exigimos que eles nos julguem.

Thiago Anastácio é advogado criminalista.

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