Extrair ouro da superfície é uma tarefa relativamente simples, mas buscá-lo a quase 4 quilômetros abaixo da terra é um desafio de engenharia que beira a ficção científica. Na mineração de ouro profunda, humanos e máquinas operam em um ambiente hostil onde a temperatura das rochas pode cozinhar um ovo e a pressão é capaz de estilhaçar paredes de pedra como se fossem vidro.
A jornada para o “centro da Terra” começa com os shafts (poços verticais), que funcionam como as artérias vitais da mina. Elevadores industriais gigantescos, conhecidos como “gaiolas”, transportam dezenas de trabalhadores de uma só vez a velocidades que podem ultrapassar 60 km/h. A descida é tão rápida que os ouvidos estalam devido à mudança brusca de pressão atmosférica.
Em minas recordistas como a Mponeng, na África do Sul, a viagem até o fundo não é direta. É preciso descer um primeiro elevador até o nível intermediário, caminhar por túneis de transferência e pegar um segundo ou terceiro elevador para finalmente chegar às frentes de trabalho mais profundas, um trajeto que pode levar mais de uma hora.
Engenharia das minas de ouro usa lama de gelo para controlar calor extremo a 4 km de profundidade
Nas profundezas extremas, o maior inimigo não é a escuridão, mas o calor. A temperatura natural da rocha virgem (VRT) a 4 km de profundidade pode chegar a 66°C. Sem intervenção humana, seria impossível sobreviver por mais de alguns minutos. Para resolver isso, as minas utilizam sistemas de refrigeração que rivalizam com os de grandes cidades.
O segredo está no uso de “lama de gelo” (ice slurry) e ventiladores colossais na superfície que empurram ar refrigerado para baixo. Segundo dados técnicos da indústria, toneladas de gelo são bombeadas diariamente para resfriar o ar nos túneis, mantendo a temperatura ambiente em torno de 28°C a 30°C, o que ainda é quente, mas suportável para o trabalho físico pesado.
Leia também: Falta de talentos em TI abre vagas bem pagas e oportunidades em todo o país
O processo de extração segue um ciclo rigoroso e perigoso conhecido como “perfurar e detonar” (drill and blast). Diferente das minas a céu aberto onde caminhões gigantes circulam livremente, no subsolo o espaço é confinado.
Engenharia das minas de ouro usa lama de gelo para controlar calor extremo a 4 km de profundidade
A pressão exercida por quilômetros de rocha acima da cabeça dos mineradores é inimaginável. Quando se escava um túnel nessa profundidade, o equilíbrio geológico é perturbado, o que pode causar “explosões de rocha” (rockhursts) — eventos sísmicos onde as paredes da mina literalmente explodem para dentro devido à tensão acumulada.
Para mitigar esse risco mortal, engenheiros geotécnicos monitoram a atividade sísmica 24 horas por dia usando sensores espalhados por toda a mina, similar a um laboratório de terremotos. Além disso, as galerias são reforçadas com malhas de aço e parafusos de ancoragem longos que “costuram” as camadas de rocha, impedindo que elas desabem sobre os trabalhadores.
A complexidade dessas operações gera estatísticas que surpreendem qualquer leigo.
O post A 4km de profundidade, a rocha cozinha um ovo: conheça a engenharia das minas de ouro que bombeiam toneladas de “lama de gelo” para evitar que trabalhadores morram de calor apareceu primeiro em Monitor do Mercado.

