Vaiado hoje no palco por partidários do presidente Lula, o Governador Eduardo Leite teve a oportunidade de botar o dedo na grande ferida aberta da política: a polarização que interditou o debate e transformou tudo num nós contra eles.
Dominado por algoritmos que sublinham as diferenças em vez do que nos é comum – incentivando o conflito – o mundo é populado por gente cada vez mais ignorante, e com carências mentais e sociais que atiçam a inveja, o ódio e a vingança.
Esse caldo de cultura ganha ainda o fermento de instituições que não se dão mais ao respeito – quebrando a confiança no contrato social que um dia nos uniu.
As pessoas não querem mais ouvir o outro lado, apenas calá-lo.
Mas a vaia de um petista não precisa de grandes explicações sociológicas: ela é um fato da vida política brasileira que precede (em muito) este mundo fragmentado da pós-verdade em que ainda tentamos respirar.
A vaia petista é a expressão máxima do monopólio da verdade que o partido sempre reivindicou para si. O PT é o partido que conseguiu ser contra a eleição de Tancredo Neves, a Constituição de 1988, o Plano Cruzado, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, a reforma da Previdência… Si hay progreso, el PT es contra. (Pero sin perder la ternura jamás.)
No início deste ano eleitoral que promete ser brutal, convém cobrar das lideranças políticas um compromisso mínimo com a moderação, a civilidade e, se possível, os fatos.
Eduardo Leite fez isso. O governador disse muito, falando apenas o óbvio.
Mas o óbvio cada vez mais precisa ser dito.
Abaixo, a íntegra do desabafo.
[Sob vaias]
Pessoal, este é ‘o amor que venceu o medo’? Não, né? Então vamos respeitar… Por favor. Eu estou aqui cumprindo meu dever institucional, em respeito ao cargo que exerço em nome do povo do Rio Grande do Sul, com respeito ao Presidente da República.
Todos nós aqui, eu e o Presidente, fomos eleitos pelo mesmo povo. Eu respeito o cargo do Presidente da República. Peço respeito, por favor. É importante que nós possamos ter a compreensão de que nós somos diferentes, pensamos de maneira diferente. Mas a gente não precisa pensar igual. É importante que neste caso pensemos no Rio Grande do Sul, pensemos no Brasil. E é nisso que estamos pensando, trabalhando de forma coordenada. […]
Senhoras e senhores, me permitam dizer uma coisa a vocês aqui: na última eleição, o Brasil teve um presidente eleito por 50,8% dos votos.
49% da população votou em outro candidato.
Se vocês desejam união e reconstrução, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente. Isso não leva a lugar nenhum!
A efetiva união que a gente quer para o nosso País envolve respeito: respeito às funções, respeito às pessoas, respeito aos ambientes!
Aqui é um ambiente institucional: é o Presidente da República, não é um comício eleitoral. É o Governador do Estado – eleito pela mesma população que escolheu o Presidente!
É muito importante que haja esse respeito. Se não, o que faz essa postura de vocês é incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa. E nós não queremos isso. Nós não queremos isso. Nós não queremos isso…
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