O vibrante “vermelho Valentino” parece menos intenso com a morte de Valentino Garavani.
O estilista italiano que lançou sua marca homônima no final dos anos 50 era o último grande criador a forjar uma grande empresa antes do setor se tornar um mercado globalizado, comandado por grandes grupos.
Neste mesmo patamar estavam dois outros gigantes que também partiram há pouco tempo: Karl Lagerfeld, falecido em 2019, e Giorgio Armani, em setembro do ano passado.
Não é exagero dizer que é o adeus à uma romântica era de ouro da moda mundial.
Valentino morreu hoje aos 93 anos em sua casa em Roma, cercado por familiares e entes queridos. A causa mortis não foi divulgada. Seu corpo será velado na quarta e quinta-feiras, e o funeral será realizado na sexta-feira, na Basílica de Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, na Piazza della Repubblica. O comunicado oficial foi feito pela Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti.
Valentino Clemente Ludovico Garavani nasceu em Voghera, perto de Milão, em 11 de maio de 1932, batizado em homenagem a Rudolph Valentino. Do ator de cinema mudo, ele herdou, também, um apelido: “o Sheik” em referência ao famoso papel do ator no filme de mesmo nome. Não foi à toa.
Desde muito cedo, o estilista conquistou espaço com inteligência, estratégia e talento. Exímio desenhista, ainda jovem se apaixonou pela pintura, arquitetura e escultura, mas desde muito cedo a moda não lhe passava desapercebida.
No final dos anos 40, Paris havia reassumido seu papel de capital da moda no pós-guerra, e a alta-costura era considerada um mundo fechado, nada afeito a estrangeiros. Coube a Valentino furar essa bolha.
Depois de aperfeiçoar o francês e o desenho em Milão, aos 17 anos, anunciou aos pais que se mudaria para a capital francesa para estudar na conceituada escola da Chambre Syndicale de la Couture Parisienne.
Seu nome começou a ser moldado profissionalmente pouco tempo depois, quando venceu o concurso de estilismo promovido pelo Secrétariat International de la Laine – Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld ganhariam o mesmo prêmio anos mais tarde.
Foi o suficiente para lhe abrir as portas do ateliê de Jean Dressès, primeiro como ilustrador e depois integrando o ateliê. Foi nessa época que seus olhos brilharam pela primeira vez pelo vermelho, a cor predominante nos figurinos da Ópera de Barcelona. “Reparei que, como o preto e o branco, não havia cor mais bela,” declarou certa vez.
Após cinco anos trabalhando para Dressès, foi contratado como estilista na Guy Laroche, onde atuou por dois anos. De lá saiu para o vôo solo. Tinha 26 anos e planos de vestir mulheres glamourosas.
A primeira coleção de Valentino foi apresentada de maneira tímida em 28 de fevereiro de 1959, em seus salões na Via Condotti, em Roma, com a ajuda financeira do pai. Três anos depois, em julho de 1962, veio a primeira visibilidade internacional, com o desfile na Sala Bianca do Palácio Pitti, em Florença. Ao final do show, surgiram inúmeras encomendas de compradores de outros países. Àquela altura, o vermelho já estava inserido no DNA de seu universo criativo.
Em Roma para as filmagens de Cleópatra, Elizabeth Taylor se impressionou com o novo designer e encomendou um vestido branco para a estreia mundial Spartacus. Liz foi a primeira da extensa lista de estrelas e jet-setters que viraram clientes: de Rita Hayworth a Audrey Hepburn, de Diana Vreeland a Jackie Kennedy – foi dele o vestido de noiva em seu casamento com Aristóteles Onassis – de Claudia Cardinale a Sharon Stone.
Aos poucos, Valentino foi construindo seu império com a ajuda do sócio e parceiro de vida, Giancarlo Giammetti, em uma união que durou mais de 65 anos – ambos sempre bronzeados e impecavelmente vestidos, fosse no trabalho, nas pistas de esqui ou a bordo do iate no Mediterrâneo.
Nos anos 60, quando a Couture sofre o primeiro grande abalo de popularidade com a ascensão do prêt-à-porter e de uma contracultura que considerava a elegância inútil, Valentino conseguiu manter a aura de modernidade graças à inspiração vinda das artes, de Klimt ao pop.
Bordados e plumas finalizam suas criações, várias delas com estampas de leopardo, zebra ou girafa. Na década seguinte, o designer reencontra os vestidos de baile, com saias amplas e babados lembrando os séculos 18 e 19. Porém, é a extravagância da década de 1980 que melhor traduz sua visão de luxo sem abrir mão de leveza e coerência estética.
“Pela primeira vez Paris acolhia em seu coração um grande costureiro italiano, aclamando-o com elogios reservados em geral aos membros de seu clube altamente restrito,” escreveu Hebe Dorsey no The International Herald Tribune em julho de 1982.
No início dos anos 90, o mundo estava mudando – e a moda também. Era o início da globalização, e a guerra do Golfo deixava o planeta apreensivo. Foi nessa atmosfera que um look de Valentino fez história: um tubo de crepe branco com a palavra “paz” bordada em 14 línguas em pérolas prateadas e cinzas, finalizado por um mantô de cetim com aplicação de uma pomba de pérolas. A imagem foi publicada mesmo por veículos não especializados.
O final da década trouxe enormes mudanças ao negócio. Em 1998, a HDP (Holding di Partecipazioni Industriali), um conglomerado controlado pela Fiat de Gianni Agnelli, adquiriu a marca por cerca de US$ 300 milhões, com o objetivo de criar um grupo italiano de artigos de luxo.
Em 2002, a grife foi vendida para a empresa têxtil Marzotto, que após três anos desmembrou seus ativos de moda, incluindo Valentino e Hugo Boss, criando um novo grupo chamado Valentino Fashion Group.
Quando o grupo de private equity Permira adquiriu a empresa, cinco anos depois, a dupla deixou a marca. A última coleção de Valentino foi apresentada em 2008, e aplaudida de pé pelos convidados.
Em 2012, a Valentino foi novamente vendida, desta vez para seu atual proprietário, a Mayhoola, apoiada pelo Catar. Após a saída de Valentino do posto de diretor criativo, assumiram Alessandra Facchinetti, Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli – que já trabalhavam na linha de acessórios – e, depois, apenas Piccioli, seguido por Alessandro Michele, que assumiu o cargo em março de 2024.
A Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, criada em 2016 para filantropia, havia ganhado impulso recentemente com a aquisição de um palácio romano no número 23 da Piazza Mignanelli, onde será realizado o velório.
Valentino estava radiante com a ideia de um espaço permanente para eventos culturais. Para marcar essa nova fase, foi aberta em maio passado a exposição Horizons | Red, que exibiu 50 vestidos vermelhos ao lado de 30 obras de arte.
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