Por anos, o mercado brasileiro repetiu uma frase como se fosse regra: empresa brasileira sem receita fora do Brasil não lista nos EUA.  Só que 2025 passou como Por anos, o mercado brasileiro repetiu uma frase como se fosse regra: empresa brasileira sem receita fora do Brasil não lista nos EUA.  Só que 2025 passou como

OPINIÃO. O mito da receita em dólar para um IPO nos EUA

2026/01/19 17:50

Por anos, o mercado brasileiro repetiu uma frase como se fosse regra: empresa brasileira sem receita fora do Brasil não lista nos EUA. 

Só que 2025 passou como um caminhão por cima desse clichê.

Houve 202 IPOs nos EUA, que levantaram US$ 44 bilhões – e 115 desses deles (57%) foram de emissores estrangeiros. Ou seja: em 2025, a NYSE e a Nasdaq funcionaram menos como “a bolsa da América” e mais como a bolsa do mundo. 

E o movimento não foi marginal. Dados do Dealogic apontam que, também no ano passado, 93% dos IPOs cross-border globais escolheram listar nos EUA, e que as empresas estrangeiras já representam 62% de todas as listagens no mercado americano. 

Em geral, as empresas estrangeiras que abriram capital nos EUA em 2025 tinham presença comercial limitada ou nula nos EUA no momento do IPO, de forma que a porcentagem da receita vinda dos EUA era bastante baixa (frequentemente inferior a 20%).

Por exemplo, a fintech israelense eToro (que fez seu IPO na Nasdaq em 2025) reportava que apenas cerca de 10% de suas contas de clientes estavam nas Américas (incluindo os EUA).

Do mesmo modo, empresas chinesas de consumo que fizeram IPO nos EUA, como a rede de chás Chagee, praticamente não geravam receita nos EUA (a Chagee operava mais de 6,4 mil lojas, das quais 6,3 mil na China). 

O que motivou a maioria dessas empresas a buscar o mercado americano foi o acesso a capital e investidores globais. 

A pergunta para CEOs e donos de empresas no Brasil é: se o mercado americano está aceitando (e precificando) histórias estrangeiras em escala, por que a empresa brasileira “não pode”? 

A crença mais comum é que, para listar nos EUA, você precisa ter receita grande nos EUA. Já mostramos que não precisa. 

Este ano, o PicPay e o Agibank começaram seus processos de IPO sem terem planos de entrar nos EUA. A lógica de ambos está mais ligada a múltiplos e ao fato de boas empresas comparáveis estarem listadas lá.

A atração por um IPO nos EUA vem por três motivos: valuation premium, bolsos de capital profundos e liquidez. O IPO nos EUA não é somente “internacionalização comercial”, mas internacionalização de capital. 

Quem são os estrangeiros fazendo IPO nos EUA? Tem de tudo:

1- Muitas microcaps estrangeiras (principalmente da Ásia) usando a Nasdaq como porta de entrada.

2- Nomes grandes que veem um IPO americano como vitrine global (e não apenas funding), como a sueca Klarna.

3- Setores que o investidor americano compra com mais facilidade: tecnologia, plataformas digitais, fintechs, infraestrutura – e atualmente uma migração visível para consumo e varejo.

O mercado americano não está esperando a empresa brasileira “virar uma empresa americana”. Ele está esperando a empresa brasileira se tornar elegível.

Elegível significa governança, disclosure, previsibilidade, liquidez – e uma tese de investimento defensável. 

Na prática, o que trava o IPO de empresas brasileiras nos EUA é quase sempre um destes três pontos: 

Tese de investimento e comparáveis:

A tese precisa ter uma narrativa de crescimento sustentado com expansão nacional ou regional e escalabilidade, ter geração de caixa e não ser uma “jabuticaba” (ajuda muito existir um comparável listado que facilite a avaliação pelos investidores).

Qualidade de disclosure e cadência de governança:

O investidor americano paga prêmio por crescimento, mas cobra disciplina: rigor nos documentos, KPIs consistentes e estimativas futuras defensáveis.

Liquidez no pós-precificação:

O mercado americano é implacável com empresas que estreiam com pouca massa crítica de float (por exemplo, IPOs menores que US$ 250–300 milhões), sem cobertura de research relevante, com base acionária concentrada em hedge funds e falta de estratégia clara para uso dos recursos da oferta.

Para uma empresa brasileira que quer listar nos EUA dar certo de verdade, ela precisa ir com mentalidade de plataforma de capital: tamanho, float (liquidez), base acionária de qualidade no IPO e um pós-IPO endereçado (uso dos recursos como moeda de troca para fusões e aquisições e até futuros follow-ons programados para crescimento).  

O takeaway para o CEO é claro: o IPO nos EUA deixou de ser uma decisão geográfica e passou a ser uma escolha estratégica de acesso ao mercado de capitais global. 

A pergunta já não é quando o mercado brasileiro vai reabrir. É como e onde uma empresa deve se posicionar para capturar capital, liquidez e múltiplos em um ambiente global. 

Esperar pela “janela local” pode significar perder o timing. Pensar estrategicamente o mercado de capitais global amplia alternativas, reduz a dependência de ciclos domésticos e antecipa a criação de valor. 

Teodora Barone trabalhou mais de 18 anos em investment banking, no Credit Suisse, Itaú BBA e UBS. É fundadora da Asimi Investments, que assessora empresas em estratégias de acesso ao mercado de capitais.

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