A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA Vivek Anchalia via BBC News Quando o diretor e roteirista Vivek Anchalia apresentou A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA Vivek Anchalia via BBC News Quando o diretor e roteirista Vivek Anchalia apresentou

Luz, câmera, algoritmo: o país onde o cinema já está tomado por imagens produzidas por IA

2026/01/12 01:07
A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA — Foto: Vivek Anchalia via BBC News A heroína do filme Naisha, de Vivek Anchalia, totalmente gerada por IA — Foto: Vivek Anchalia via BBC News

Quando o diretor e roteirista Vivek Anchalia apresentou seu próximo filme, os produtores não se entusiasmaram. Seu projeto só começou a ganhar força quando ele trouxe um novo tipo de colaborador.

Com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT e Midjourney, Anchalia encontrou uma forma de produzir o filme sozinho. O Midjourney forneceu os visuais e o ChatGPT serviu de placa de som.

Em pouco mais de um ano, ele conseguiu adaptar a linha de produção amplificada por IA, um quadro de cada vez.

"Acho que o Midjourney já me conhece intimamente", brinca ele.

Anchalia também é letrista. Ele tinha diversas canções românticas aguardando um pano de fundo no estilo de Bollywood para serem lançadas.

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"Logo começou a surgir uma história", ele conta. E o resultado foi o filme romântico Naisha.

"Por que esperar pela aprovação de um estúdio, se a IA me permite produzir o filme como eu desejo?"

Na diversificada indústria cinematográfica indiana, a IA não é apenas uma curiosidade adotada por cineastas emergentes. Ela também se infiltrou no dia a dia da produção de filmes com grandes orçamentos.

Do rejuvenescimento de atores veteranos até a clonagem de vozes e visualização de cenas antes da filmagem, a IA já está presente em todos os campos da cinematografia indiana.

Alguns estúdios se apaixonaram rapidamente pela tecnologia, mas ela traz consigo novos riscos e dilemas éticos.

O cinema indiano adotou a IA no processo de criação e produção de filmes de forma totalmente oposta aos seus primos americanos de Hollywood.

Nos Estados Unidos, atores e roteiristas resistem firmemente ao uso da IA. Houve greves generalizadas dois anos atrás, que paralisaram programas de TV e grandes produções.

Mas, para Anchalia, a IA impulsionou sua produção. O orçamento do seu filme foi de menos de 15% de uma produção tradicional de Bollywood e 95% do longa metragem de 75 minutos foram gerados por IA.

Depois da divulgação do trailer, sua heroína Naisha, gerada por computador, chegou a conseguir um contrato publicitário com uma joalheria de Hyderabad, no sul da Índia.

A indústria cinematográfica da Índia (a maior do mundo) vem adotando o uso da IA com mais rapidez do que Hollywood, mas a tecnologia não agrada a todos — Foto: MG Srinivas via BBC News A indústria cinematográfica da Índia (a maior do mundo) vem adotando o uso da IA com mais rapidez do que Hollywood, mas a tecnologia não agrada a todos — Foto: MG Srinivas via BBC News

Anchalia conta que pode ter precisado repetir mil vezes o mesmo processo até encontrar o visual desejado. Mas, ainda assim, foi muito menos estressante do que montar uma grande produção.

"A IA democratizou a cinematografia", afirma ele. "Hoje em dia, qualquer jovem aspirante a cineasta, sem recursos, pode produzir um filme usando a IA."

Diretores já estabelecidos também adotaram a inteligência artificial.

Jithin Laal usou a IA nas primeiras etapas de criação do sucesso de bilheteria Ajayante Randam Moshanam (ARM), produzido em língua malaiala, falada no sul da Índia. O diretor gerou a visualização de um complexo sistema de travas que ele tentava, com dificuldade, explicar para sua equipe de efeitos visuais.

A pré-visualização dirigida por IA, agora, está incorporada ao processo de Laal para contar histórias.

"Para o meu próximo filme, estamos testando cenas antes de comprometer recursos financeiros com a produção em larga escala", ele conta.

Já o cineasta Arun Chandu produziu uma sátira de ficção científica com um orçamento muito limitado, de 20 milhões de rúpias indianas (cerca de US$ 240 mil, ou R$ 1,3 milhão). "É menos que o custo de um casamento indiano", exclama Chandu, rindo.

Ele usou Photoshop, programas gráficos e uma ferramenta de aprendizado profundo chamada Stable Diffusion para criar uma sequência militar no seu filme pós-apocalíptico, Gaganachari, também falado em idioma malaiala.

Paralelamente, os designers de som Sankaran AS e KC Sidharthan adotaram ferramentas alimentadas por IA, como Soundly (uma biblioteca de sons em nuvem) e Reformer, do Krotos Studio, uma ferramenta de design de som que permite aos artistas editar de forma lúdica os efeitos sonoros, usando indicações como sua própria voz.

"Antigamente, se um cineasta tivesse uma ideia radical de última hora, era preciso alugar um estúdio", explica Sankaran. "Hoje, nosso enfoque é 'podemos fazer isso imediatamente'."

Mas, enquanto o cinema indiano adota a IA sem restrições, surge uma grande preocupação: estarão os cineastas indianos prejudicando a criatividade humana e gerando riscos desnecessários para os seus projetos?

Cineastas como Laal defendem que, ao contrário dos artistas humanos, a inteligência artificial não tem a profundidade emocional, nuances culturais e a intuição humana, que são fundamentais para a criação de grandes roteiros.

Uma versão do filme Raanjhanaa (2013) em idioma tâmil (falado no sul da Índia, entre outros países) foi relançada em agosto de 2025. Seu trágico final foi substituído por um final feliz, criado por IA.

A nova versão foi idealizada pela mesma companhia que produziu o filme, sem o consentimento do diretor original.

O diretor Jithin Laal usou a IA para visualizar uma trava complexa que ele tinha dificuldade para descrever para sua equipe de efeitos visuais — Foto: Jithin Laal via BBC News O diretor Jithin Laal usou a IA para visualizar uma trava complexa que ele tinha dificuldade para descrever para sua equipe de efeitos visuais — Foto: Jithin Laal via BBC News

Paralelamente, cineastas indianos expressaram ceticismo sobre a real possibilidade de que a IA ajude os filmes de baixo orçamento. Outros criticaram a falta de profundidade emocional da tecnologia.

"Ela não consegue criar mistério, sentir medo ou amor", declarou o diretor Shekhar Kapur à BBC, em 2023.

No cinema ocidental, o rejuvenescimento digital de atores chegou a causar controvérsia. Um caso foi o da versão rejuvenescida de Tom Hanks no drama Aqui (2024).

Mas, quando os cineastas da Índia usaram IA para inserir uma versão rejuvenescida do veterano ator indiano Mammootty, no filme em malaiala Rekhachithram (2025), as redes sociais ficaram repletas de elogios.

Alguns fãs aclamaram o rejuvenescimento como "a melhor recriação por IA do cinema indiano". A obra se tornou um dos filmes malaialas de maior bilheteria do ano.

Em Rekhachithram, Mammootty, que tem 73 anos de idade, aparece como se tivesse pouco mais de 30. Andrew Jacob D'Crus, um dos fundadores e supervisor de efeitos visuais da Mindstein Studios, conduziu o processo.

Ele e sua equipe alimentaram inicialmente modelos de IA com dados visuais de Mammootty, retirados do filme Kathodu Kathoram (1985). Mas a filmagem resultante ficou granulada.

"O material usado para alimentar a IA não era bom", explica D'Crus. A equipe tentou, então, usar cenas de Mammootty no filme Manu Uncle (1988), que foi remasterizado em 4k.

O veterano ator Sathyaraj, mundialmente conhecido pela franquia Baahubali, tem sua própria opinião a respeito.

"Se a IA puder estender minha vida útil, permitindo que eu interprete protagonistas em filmes de ação, em uma indústria marcada pelo etarismo como a nossa, por que não usá-la?"

Ele se refere à sua cena de rejuvenescimento no filme de super-herói Weapon (2024), em idioma tâmil. A tecnologia fez com que sua aparência se transformasse dos atuais 70 anos de idade para a casa dos 30 anos.

O diretor Guhan Senniappan idealizou uma sequência estilizada, similar às de Kill Bill (2003-2004).

"Mas não tínhamos orçamento, nem tempo suficiente", relembra ele. "Não fosse pela IA, teríamos postergado o lançamento."

Falta diversidade cultural

Apesar da eficiência que a IA trouxe para o projeto, Senniappan também observou peculiaridades da tecnologia.

"Tente colocar prompts como 'semideus' e ela irá fornecer resultados irreconhecíveis", ele conta. "A IA desconhece completamente referências hiperlocais enraizadas na mitologia indiana."

No caso de cenas culturalmente ricas, ele continua contratando artistas tradicionais para preparar storyboards.

Frustrado e, segundo ele, quase ofendido, Senniappan destaca que as ferramentas de IA são derivadas de conjuntos de dados ocidentais. Por isso, ela é insensível em relação à estética indiana.

"Você pode criar uma sequência de um filme regional indiano usando o ChatGPT, mas precisaria alimentar a memória cultural do roteiro original", explica ele. "Aquele roteiro precisaria ser escrito por um roteirista humano."

O cineasta MG Srinivas ficou surpreso com a ignorância cultural da IA quando usou a tecnologia para clonar a voz do ator principal, Shiva Rajkumar, no seu filme Ghost (2023), em idioma canarês, falado no sul da Índia.

Srinivas precisou de engenheiros humanos para reescrever os modelos fonéticos regionais e retificar inconsistências de fala, como sigmatismo.

"Quando o trailer foi publicado em diversos idiomas, funcionou", ele conta. "O público não percebeu que a voz de Shiva Rajkumar nas versões em hindi, telugu e malaiala não era dele."

Senniappan e Srininvas acreditam que, para uma indústria cinematográfica como a indiana, com sua diversidade linguística, a inteligência artificial atualmente não compreende nuances culturais e emocionais. Por isso, a intervenção humana é fundamental.

A IA rejuvenesceu o rosto do ator Shiva Rajkumar no filme de ação Ghost. O ator real aparece na imagem à esquerda e a versão rejuvenescida, à direita. — Foto: MG Srinivas via BBC News A IA rejuvenesceu o rosto do ator Shiva Rajkumar no filme de ação Ghost. O ator real aparece na imagem à esquerda e a versão rejuvenescida, à direita. — Foto: MG Srinivas via BBC News

Para ajudar a enfrentar estas questões, o cineasta Arun Chandu está treinando modelos de IA para espelhar sua própria criatividade.

"Estou criando um clone de mim mesmo", ele conta.

Ex-fotógrafo, Chandu está alimentando todo seu trabalho, incluindo suas características de composição, cores e estilo visual, em um modelo de IA. Ele espera que esse modelo copie sua personalidade artística.

Um dos riscos é que as pessoas comecem a recolher indevidamente propriedade intelectual e imagens dos atores, pois não existe legislação específica no país para proteger as pessoas contra o mau uso da inteligência artificial.

"Não existe um único estatuto abrangente neste sentido", segundo a advogada especializada em entretenimento Anamika Jha, fundadora da organização Attorney for Creators.

Para pessoas vivas, existem na Índia proteções legais em relação ao uso das suas imagens e vozes, segundo ela. Mas essas proteções, atualmente, são restritas a apresentações ao vivo ou gravadas e não se estendem especificamente às imitações geradas por IA.

"A ausência de reformas legislativas explícitas para cobrir esses usos comprova que as leis não estão acompanhando a velocidade da IA", explica Jha.

Existe também uma aparente falta de proteção para os profissionais da indústria cinematográfica, cujos empregos são ameaçados pela inteligência artificial.

"Na Índia, as leis trabalhistas atuais não incluem o uso da IA para eliminar ou reproduzir o trabalho humano", segundo a advogada.

Alguns cineastas consideram as implicações éticas da adoção de IA.

O diretor e roteirista Srijit Mukherji fez uso de inteligência artificial para recriar as vozes de dois artistas bengalis já falecidos: o vencedor do Oscar Satyajit Ray (1921-1992), no filme Padatik, e Uttam Kumar (1926-1980) em Oti Uttam.

"Acho que não se trata realmente de um dilema ético, se você fizer da forma certa", explica Mukherji. "Nós trouxemos as famílias para participar."

Mas Jha destaca que "os direitos póstumos à personalidade não são formalmente reconhecidos" na Índia. Isso significa que "a voz ou a aparência de um ator poderia ser utilizada após a morte, sem consentimento".

"As famílias podem oferecer permissões informais, mas não existe uma estrutura jurídica", explica ela.

O ator Sathyaraj, agora com 71 anos, foi rejuvenescido com ajuda da IA e aparece na casa de 30 anos no filme Weapon — Foto: Guhan Senniappan via BBC News O ator Sathyaraj, agora com 71 anos, foi rejuvenescido com ajuda da IA e aparece na casa de 30 anos no filme Weapon — Foto: Guhan Senniappan via BBC News

Existem outras questões a serem consideradas, como o fato de que a IA pode produzir imagens que parecem "estranhas" para os olhos humanos. A tecnologia também pode criar alucinações ou confundir detalhes das imagens geradas.

"Sempre existe a preocupação de que algo possa surgir com aparência 'deslocada'", explica D'Crus. "Um sorriso que não parece natural ou uma mecha de cabelo rígida. O público percebe essas falhas."

O diretor do Laboratório de Ideias da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, Aniket Bera, trabalhou em dois projetos muito diferentes na área de IA: a restauração de um fragmento de filme de 1899, que se acredita ser a filmagem mais antiga remanescente na Índia, e um experimento anterior baseado em inteligência artificial, com o filme Pather Panchali (1955), de Satyajit Ray.

"A IA suaviza as sombras e contraste que eram tão fundamentais para a ambientação do filme", explica ele. "A IA não entende simbolismo, só adivinha padrões."

Bera afirma que todas as etapas exigiram revisão humana, para garantir que o resultado fosse fiel ao original.

"A IA alucinava detalhes com frequência, alterando a linguagem visual para 'melhorar' coisas. Com isso, nos arriscamos a reescrever a história."

Para Mukherji, a inteligência artificial permitiu que ele transformasse sua visão de cineasta em realidade. Afinal, de que outra forma ele poderia escalar dois atores mortos?

A IA recriou a voz de Uttam Kumar em todo o filme Oti Uttam. Mas ele destaca que o projeto dependeu muito, como sempre, da intervenção humana, para a criação do roteiro, seleção de material de arquivo, obtenção de autorizações legais e verificação do material produzido por inteligência artificial.

As ferramentas de IA estão evoluindo rapidamente, criando uma série de questões éticas e regulatórias. Mas Mukhreji pede otimismo.

"Em vez de entrarem em pânico, os seres humanos devem ficar confortáveis com a IA", aconselha ele. "Aprenda, domine e aproveite."

"Ela não é um monstro com aparência de androide, tentando devorar sua criatividade. Ela ajuda a criatividade, não a substitui."

Ainda assim, para outros, as limitações da inteligência artificial permanecem evidentes.

Chandu compartilha na sala de aula seu aprendizado no set de filmagem, como professor em um curso universitário sobre IA no cinema.

Em um dos módulos, ele pede aos alunos que produzam dois filmes, um usando o ChatGPT e ferramentas de vídeo baseadas em IA e o outro inteiramente com técnicas tradicionais.

"Depois, comparamos qual versão parece mais autêntica", explica ele. "O objetivo é compreender se ambas podem coexistir."

Geralmente é mais rápido e fácil criar filmes com IA, segundo ele. "Mas a versão mais refinada é sempre a humana."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.

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